A Doutrina Cátara
Matéria extraída do site www.catarismo.com. Tradução autorizada pelo Autor e Proprietário do site - Josep Claret.
A Doutrina da Igreja Cátara
Em primeiro lugar há que se fazer constar algo muito importante já que é impossível ter um exato conhecimento da doutrina desta religião por dois motivos básicos:
· Um, apenas, não existe documentação de domínio público para que se possa investigar ou firmar umas bases. Só temos a existência de uns poucos livros que sobreviveram à perseguição herética de que foram objeto por parte da Inquisição (Ver Documentos da Igreja Cátara) e fazer uma análise exaustiva sobre a doutrina religiosa com base nesses documentos seria como querer fazer uma análise da religião Católica com base em alguns fragmentos da Bíblia, um par de cartas dos Apóstolos e um livrinho de catecismo daqueles que usávamos quando pequenos quando nos preparávamos para a primeira comunhão.
· Dois, a outra fonte da qual os estudiosos e investigadores mais tem podido obter dados sobre o tema, são os registros da Inquisição e que, tampouco nesse caso, não é de se confiar, já que a missão dos inquisidores não era a de fazer um estudo doutrinário, senão que seu objetivo era somente demonstrar que as pessoas julgadas eram hereges.
Firmadas estas duas premissas, vamos estabelecer os pontos que temos para começar esta análise doutrinária.
De um lado, como já dissemos, temos uns poucos documentos que nos chegaram através da história, os quais são analisados em outra parte (Ver Documentos da Igreja Cátara). Da análise destes documentos, pode-se começar a tirar algumas pequenas conclusões:
- A Igreja Cátara baseava sua doutrina nos Evangelhos, interpretando-os num sentido de alta espiritualidade, negando a Bíblia que, diziam, havia sido concebida pelos seguidores do mal e inspirada pelo próprio Demônio.
- Baseava-se em que da "Eternidade" procediam os "Dois Princípios", já que negavam qualquer possibilidade de que o mal, origem do Demônio, pudesse ter sua origem em Deus.
- Deus criou os anjos, enquanto que o Demônio criou o mundo.
- Deus só rege a alma, o nada, o imaterial, enquanto que o Demônio rege todo o material, inclusive o corpo. As almas, regidas por Deus, são prisioneiras no corpo regido pelo Demônio.
- Deus não é Todo-poderoso e só pode reinar sobre a parte do bem que reside em cada um de nós. É na própria imperfeição do bem, onde reside o mal.
- Satanás é um filho de Deus e com sua queda tem início a história do Universo.
- As almas dos homens são os anjos caídos na rebelião.
- As almas não foram concebidas para uso em um só corpo, por isso, após a morte, se não se tiverem salvo, transmigrarão para outro corpo, até seu retorno ao céu.
- Deus permite a vitória de seu filho rebelde no mundo, mas tem previsto enviar os anjos à Terra.
- Jesus, feito à sua imagem e semelhança, se converte no Filho de Deus enviado, junto com os "bons espíritos", ao mundo, para se constituir como senhor dos bons, mas ao ser filho nascido de Maria, é tentado por Satanás.
- A morte de Jesus na cruz é outra vitória de Satanás, que foi permitida por Deus para que sirva de lição para os homens. A Igreja Cátara não adorava a cruz, senão que a repudiava como o instrumento de tortura que haviam utilizado os inimigos de Deus.
- É através de Jesus Cristo que os caídos recebem a iluminação e o retorno à pátria celestial.
- Os espíritos celestiais reunem as almas caídas em torno de Paulo e seus sucessores, os cátaros, para que o bem retorne ao bem.
- No final os malvados serão castigados por todaa eternidade e este mundo será destruído pelo fogo.
- Somente a criação de Deus continuará por toda a eternidade e será o fim do "Dois Princípios".
- A alma do homem está nesta terra para cumprir a penitência de sua ruptura com Deus, que a havia concebido como Anjo no princípio dos tempos e, uma vez liberada dessa penitência, a morte do corpo, regressa ao céu, ao passo que se não alcançou a "perfeição", transmigra para outro corpo até alcançá-la.
- O pecado é o que sujeita a alma ao mundo. Só uma vida totalmente livre de pecados, a vida de um "perfeito", permite a alma do homem se dar conta de sua própria natureza "angelical".
- Não existe o pecado "venial". Todos os pecados, por pequenos que sejam, são mortais, já que a humanidade se encontra dividida em dois grupos: Anjos e Demônios.
- O Espírito. Para a Igreja Cátara existem três concepções espirituais totalmente diferenciadas:
- O Espírito como parte do homem ou do Anjo, é a parte incorruptível deste (formado por Espírito/Alma/Corpo). É a parte que vive no céu, sempre a salvo.
- O Espírito Santo Paráclito, que é o "Consolador", prometido por Jesus Cristo e que a alma recebe no momento do "Consolhament" (ver Ritos da Igreja Cátara)(Para a Igreja Cátara, quando os apóstolos receberam o Espírito Santo, iniciaram o ciclo de transmissão deste espírito, que a Igreja Católica havia abandonado. Eles se consideravam os verdadeiros transmissores deste ciclo que haveriam herdado diretamente dos primeiros apóstolos, através do tempo e dos “Perfectos”. Esta cadeia não podia ser quebrada, pois o Espírito só residia naqueles que haviam recebido o “Consolhament” (ver Ritos da Igreja Cátara) E somente eles podiam transmití-lo.)
- O Espírito Santo, que como tal é considerado a terceira pessoa da Trindade pela Igreja Católica. A Igreja Cátara não cria na Trindade como tal. Nem Jesus cristo nem o Espírito Santo são consubstanciais nem iguais ao Pai. Segundo está documentado na “Summa de les autoritats”: “Existe um número ilimitado de Filhos de Deus, entre os quais figura o Espírito Santo, o mais poderoso mensageiro da Côrte Celestial, que mereceria ser chamado Deus porque procede eternamente de Deus, mas, por outro lado, é inferior ao Pai pelo fato de haver saido Dele para viver à suas ordens, e Jesus cristo, ele também de origem Divina, sem pretender, dessa forma, a onipotência de Deus.”
Para a Igreja Cátara, o Batismo de Água não tinha absolutamente nenhum valor nem tinha nenhuma influência para sua salvação. Eles celebravam um batismo espiritual chamado “Consolhament” (ver Ritos da Igreja Cátara) E sempre realizado em pessoas adultas. Embora não fosse obrigatório, no processo se costumava a pedir a renuncia “abrenuntiatio” ao batismo Católico.
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O Deus das três caras
O deus das três caras e as bêstas humanas das dunas: alguns antecedentes do catarismo
Jul 10th, 2009 por Ademir.
Foram identificados dois claros antecedentes do movimento cátaro em certas heresias de perfil dualista, estabelecidas ambas nas regiões de Bizancio e que impulsionaram extensivamente as igrejas dos cátaros na Occitania. Tais movimentos foram o dos Paulicianos e o dos Bogomilos.
Os Paulicianos, surgidos na Armenia durante o século VI, defendía uma visão maniqueísta da realidade, e uma iconoclastia pronunciada. Para esses homens o mundo era o produto da atividade de um nocivo demônio, o temível Satan. Além disso, interpretavam como muito relativo o acontecimento da encarnação, posto que o Verbo divino não podia ter-se maculado ao se vincular a um corpo humano, assim os Paulicianos propalavam um feroz docetismo. Além disso, rechaçavam terminantemente todo culto à Maria, aos sacramentos do batismo e à eucaristia.
Os Bogomilos por outro lado surgiram na Bulgária. A posterior Igreja Grega conservou muitas de suas perspectivas, usos e costumes. Os Bogomilos adotavam uma cosmovisão dualista, com um Deus bondoso dedicado à geração e proteção dos aspectos espirituais do ser; e a Satan por outro lado, amparando la materialidade e tudo o meramente tangível. Inclusive o céu, era uma obra do maligno, para esta seita. Outras notáveis convicções dos Bogomilos se referiam a uma não aceitação do gênesis bíblico, por considerá-lo como um evento nefasto e diabólico; o rechaço à figura de Moisés e sua célebre Lei; a personificação da Trindade como a de uma estranha criatura com tres rostos, e de Cristo como um ser condenado a ser perfectível, ao ter se visto desvinculado da Mônada divina em certo instante da eternidade. Finalmente, cabe referir que eles practicavan um ascetismo inaudito para assim poderem ser merecedores do qualificativo de bons cristãos e distinguirem-se dos corruptos da tradição ortodoxa e a romana.
Por outro lado, nós queremos propor a certos santos como possíveis antecedentes da tradição cátara. Um deles é Santo Onofre, e outra é, Santa Maria Egipcíaca.
O primeiro se dedicou a uma vida ascética no deserto, vestia uma túnica de pelos, se alimentava de gafanhotos, conversava com um corvo e andava de quatro. Uma coluna de fogo lhe ditava os segredos de ser outro. Santa Maria Egipcíaca por sua vez, se dedicou à prostituição durante muito tempo, antes de escutar uma voz do céu que a ameaçou lançá-la à solidão do deserto. Morreu ali, após uma vida inteira de ermitã, com seu último suspiro ao céu escrito na areia, e a seguir no vento, que o apagou para sempre.
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