Os Costumes

A Música

O Catarismo e os Trovadores

Jun 22nd, 2009 por Joclar.


Com frequencia ouvimos falar dos trovadores, e a idéia mais comum que temos deles é que eram uns personagens que, na Idade Média, faziam música e se deslocavam entre as cidades e os castelos. Mas na realidade, o mundo dos trovadores foi muito mais complexo que tudo isso.

 

De início temos de definir o marco linguístico onde nasceu a "arte de trovar", as terras de língua occitana. Essas terras que, politicamente, nunca constituiram uma unidade, se constituiram em termos linguísticos, compreendendo um terço da extensão do que é hoje conhecido como França.

 


O occitano é uma língua românica, neolatina, como o são o francês, o castelhano, o catalão, o galego, o português, o italiano, o sardo, o rumeno, ou o dálmata. O marco geográfico do occitano permaneceu praticamente invariável desde a idade média, apesar da grande diminuição de indivíduos nativos que o falam ou praticam. Suas delimitações linguísticas geográficas são o euskera, o castelhano e o catalão pelo sul, o italiano pelo leste e, pelo norte, com o franco-provençal e o francês. A partir do século XII, os autores em língua occitana a diferenciaram das outras com alusões distintas, como "língua romana" em contraposição ao latim. Foi nos séculos seguintes (XIII e XIV) que começa a aparecer a designação de 'roman' em contraposição ao francês ou "língua do rei". O gramático catalão Raimon Vidal, de Besalú, a denominou "el llemosi", como oposto à "parladura francesa", enquanto que o termo "proençal" foi utilizado pelos italianos, em alusão ao antigo termo de província romana, em contraposição à "francígenae" da França setentrional. A primeira documentação onde aparece o termo "língua d'oco" em contraposição às línguas de "ôil" e "sí", é em textos de Dante. As primeira aparições do termo "occitano" aparecem no século XIV em expressões como "língua occitana", "república occitana", "pátria língua occitana"em documentos da administração oficial.

 


Culturalmente, a identidade medieval occitana se caracteriza, precisamente, pelos Trovadores. Estes, com sua literatura, ultrapassaram as fronteiras, principalmente para Espanha e Itália, não só em busca de apadrinhamento, se não que sua linguagem foi adotada, por exemplo, por Alfonso II de Aragón como linguagem oficial da corte, e como parte de sua estratégia para promover suas ambições políticas na Occitania.

Sua época de nascimento, expansão e florescimento coincidiu, precisamente, com o nascimento, expansão e florescimento do catarismo em toda Occitania.

Este fato faz que muitas vezes se vincule o catarismo e a composição dos trovadores e este é, precisamente o tema que vamos tocar nesta e em sucessivas matérias sobre esta temática que iremos incluindo.

 

Fonte desta informação:

El mundo de los trovadores de Linda M. Paterson. Ediciones Península (Barcelona/1997) ISBN: 8483070405 



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O Catarismo e os Trovadores II

Jun 28th, 2009 por Joclar.

 

Guilhèm IX de Poitiers (Bibliothèque Nationale, MS cod. fr. 12473 13th century)

Segundo todos os textos que falam dos trovadores, o primeiro connhecido de todos eles é Guilhèm IX de Poitiers (Guilhèm IX de Aquitania e de Gascuña, Guilhèm VII de Poitiers). Conhecido por sua fama de mulherengo e por seus constantes desafios à igreja, pelo que foi excomungado em diversas ocasiões.

Filho de Guilhèm VIII e de Hildegarda de Borgonya, suas possessões representavam mais do dôbro das possessões do rei da França, de quem era nominalmente vassalo. Não obstante suas ambições territoriais sempre passaram pela anexação do condado de Tolosa, que tentou e conseguiu em diversas ocasiões, embora sempre teve que terminar abandonando-as por causa das pressões do Papa, pois algumas delas foi aproveitando que o Conde de Tolosa se achava nas cruzadas.

 

Guilhèm IX de Poitiers (Bibliothèque Nationale, MS cod. fr. 12473 13th century)

Como trovador, de suas onze canções conservadas, as seis primeiras estão escritas numa linguagem plástica e brutal, e dirigidas aos guerreiros e vasalos que o acompanhavam em suas andanças bélicas e amorosas. A quarta, Farai un vers de dreit nien, é de uma modernidade incrível pela maravilhosa atmosfera de irrealidade e mistério que envolve todo o verso, fazendo da negação um tema literário. Os poemas VI a X se situam em um contexto de amor cortês no qual a dama, elevada e até inacessível, faz do cavaleiro seu vasalo. A canção XI expressa melancólicas considerações sobre a proximidade da morte. As onze poesias são outras tantas peças mestras de uma atualidade permanente:

 

•Ab la dolchor del temps novel

•Ben vuelh que sapchon li pluzor

•Companho, farai un vers qu’er covinen

•Companho, non puesc mudar qu’eo no m’effrei

•Companho, tant ai agutz d’avols conres

•Farai chansonetta nueva

•Farai un vers de dreit nien

•Farai un vers pos mi sonelh

•Molt jauzions mi prenc amar

•Pos de chantar m’es pres talenz

•Pos vezem de novel florir


Eis aquí um parágrafo de um dos mais conhecidos “Farai un vers de dreit nien” (farei um verso sobre nada):

 

Farai un vers de dreit nien:

non er de mi ni d’autra gen,

no er d’amor ni de joven,

ni de ren au,

qu’enans fo trobatz en durmen

sus un chivau. 



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Uma Representação do Catarismo sob forma de Espetáculo

O catarismo feito espetáculo

Jul 7th, 2009 por Joclar.

Espectáculo de OC a Beziers

Quando se fala de catarismo e de sua história, tende-se a pensar que é um tema sério, e o é, que se fala de religião, e se fala, que se trata de história, e se trata, mas quando tudo isso se converte na magia do espetáculo feito de luzes, som e interpretação, por um grupo como OC, a visão do tema muda e se converte numa cenografia que, além de arrepios pela emoção, cala até o mais profundo de nossos ossos.

 

OC em sua apresentação de Béziers em 22 de Maio 2009.

Em minha chamada “Uma viajem fantástica ao país dos cátaros” escrevia uma relação de suas apresentações previstas para este verão em diferentes lugares e cenários de Occitania, embora para a primeira não cheguemos a tempo, lembro que ainda podemos assistir:

 

•Domingo 12 de julho no castelo de Puilaurens (reservas antecipadas pelo telef. ++ 33 4 68 20 65 26)

•Sexta-feira 17 de julho nas gargantas (Gorges) de Minerva (reservas antecipadas pelo telef. ++ 33 4 68 91 31 75)

•Terça-feira 28 de julho nas muralhas de Nébian (reservas antecipadas pelo telf. ++ 33 6 61 18 01 87)

•De 6 até 16 de Agosto, na Cité de Carcassonne (reservas antecipadas pelo telef. ++ 33 4 68 11 59 15)

Este espetáculo que representam, chamado “Cathares – la croisade – èpisode I – 1209″, coincidindo com o 8º centenário do início da cruzada albigense e cuja programação se iniciou em 22 de Maio em Béziers, cenário do primeiro episódio sangrento da fatídica cruzada, é magnificamente ambientado e documentado quanto à apresentação dos fatos:

 

Para a apresentação, utilizam-se de todas as classes de meios.

“22 de julho de 1209: Béziers, envolta pelas chamas, é o cenário de um massacre revestido de uma violência inaudita. Os cruzados, convocados pelo Papa Inocêncio III para terminar com a fé cátara que se havia difundido pelos principados occitanos do sul da atual França, tomaram a cidade: “Queimai-os todos, Deus reconhecerá os seus”; estas foram as palavras do abade do Císter, Arnaud Amaury, chefe espiritual da cruzada.

É dentro desse contexto que encontramos submerso Jena Benoit, um cavaleiro de Champanha, acostumado com as cruzadas do Oriente, que veio ao Sul para defender a posição de Roma. De regresso ao Norte, Jean Benoit, que está convencido da necessidade de fazer abjurar os hereges, reflete cuidadosamente sobre seu périplo. Certamente sobre os episódios guerreiros, porém, acima de tudo, sobre essa gente com a qual cruzou no caminho. Sobre os Cátaros que compartilhavam suas vidas com o povo, os trovadores que não faziam outra coisa que cantar-lhes o amor, sobre os códigos que regiam uma sociedade generosa e aberta. Pobres e pacíficas, as comunidades dos “Bons Hommes”, que eram protegidas pela nobreza occitana. A imagem de Raymond-Roger Trencavel (Visconde de Carcassonne, Béziers e Albi) que organizou a defesa e resistência de Carcassonne, preso finalmente depois de 14 dias de assédio. Trencavel é morto deixando um filho de cinco anos que se destacará...Porém de forma igual é um cavaleiro cruzado que veio para defender sua fé e só determinado das questões do homem, de imediato seu fanatismo se galvaniza na destruição de um país, de sua cultura, de seus valores, assim como seu espírito de abertura para os demais..”

(Extrato sobre o conteúdo da obra no sítio Web de OC)

 

Uma das fontes documentais é "La Chanson de la Croisade Albigeoise"

Para colocar em cena todos esses acontecimentos, o grupo OC, magistralmente dirigido por Christian Salès, utiliza as fontes documentais da história, utilizando os meios mais avançados da tecnologia que combina imagens de fundo, mediante filmes realizados para a ocasião com os meios mais avançados da tecnologia da animação com o fim de permitir a projeção de imagens de grande formato.

O estilo gráfico é baseado nos desenhos da iluminuras da “La Chanson de la Croisade Albigeoise”, a cujo livro dedicamos vários artigos neste blog.

 

Com músicas sinfônicas originais do próprio grupo, os efeitos especiais, combates, danças ao vivo, valorizam as cenas de ação projetadas. A música e a concepção sonora foi composta e arranjada especificamente para esta obra. Os instrumentos próprios dos trovadores se acham presentes e em perfeito conjunto numa coreografia dinâmica e cativante.

 

Os figurantes, ataviados com as vestes da época, participam nos ritos e nas cenas, conduzidos por dois “Bons Homes”. Este aspecto pluri-disciplinar empresta atrativo e ritmo ao espetáculo entre o público.

 

No que se refere à música,, o grupo OC, propõe uma música única que reune vozes, instrumentos antigos e outros eletrônicos. Os cantos, baseados em textos occitanos, evocam a história, as lendas e o sonho da civilização languedoquiana. Em prolongação da memória occitana, OC reinventou os instrumentos dos trovadores e seu conjunto musical se compõe de instrumentos antigos e tradicionais, percussões medievais e mediterrâneas e de instrumentos eletrônicos originais. Oc se inspira nas melodias e canções originais dos trovadores, combinando-as com sonorizações do século XXI. Através de suas criações, o grupo submerge o público numa atmosfera de mistérios onde a noção de tempo se perde nas brumas da história.

  



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